O Homem pós-moderno
ou
Consumação
Desde a década de 60 nós vivemos no pós-modernismo. O homem pode explodir o mundo todo com algumas poucas bombas, mas dominou o mundo com refrigerantes, tênis e outras trivialidades. Tudo o que importa são cifras, signos digitais. Seu RG, o número da sua conta, a porcentagem de analfabetos, a queda de 1% da bolsa de valores e o número do seu canal preferido de televisão.
Graças as tecnologias e as maravilhas do chip você consegue através do e-mail e da webcam você fala com Cheng na China e com Pierre na frança. Dos sete bilhões de pessoas no mundo, muitas ao alcance dos tentáculos digitais da Web, você dorme sozinho, abraçado ao travesseiro com medo do escuro.
A mídia, 24 horas por dia, joga imagens na sua cara dizendo o que lhe falta. E são tantas coisas, que você acredita estar vazio. Mas você tem escolhas. O mercado livre lhe dá todas as possibilidades de você comprar o que quiser ser. O que você pensa ou crê geralmente não interessa muito, mas sim o que você consome. Seu carro, suas roupas, suas músicas, seu entretenimento. A televisão ganha 150 mil reais para que você veja 15 segundos de anúncio e gaste 150 reais comprando algo que você não precisa, mas comprou mesmo assim.
Você possui uma série de valores individualistas e hedonistas sem saber. Se acredita livre, mas quando algo dá errado não tem a quem recorrer. A polícia não faz nada, um processo sai muito caro, uma reclamação no PRCON carimbada em duas vias, assinada com número do RG e CPF, auditoria e testemunha dá trabalho demais. A burocracia lhe deixa em estado de inanição. Recorre à Deus sem esperar resposta, porque você não tem mais fé. Suas orações não têm destino, são apenas reclamações e muxoxos soltos, porque ninguém quer lhe ouvir, exceto o psicanalista, por 100 reais a hora, lhe ajudando a se conformar com sua vida insossa.
Você tem o poder de escolher o presidente e seus governantes, ou melhor, menos de um milionésimo desse poder. Seu voto não representa nada. A política não lhe proporciona nada de bom, por isso você não gosta deste assunto. Sabe que eles roubam e continuarão roubando, tudo acaba em pizza, mas você não come nenhum pedaço. Então doa uma cesta básica, entra numa ONG e não faz nada, porque não acredita que possa fazer algo, e realmente não pode, pois está sozinho.
Apesar de haver um Estado soberano você paga plano de saúde, escola pros seus filhos pequenos, faculdade para os mais velhos, segurança particular e serviços de necessidades básicas, tudo privatizado, ou seja, nada deste dinheiro gasto vai lhe retornar alguma melhoria.
Você lê dezenas de livros de auto-ajuda que repetem as mesmas palavras da mesma forma, e apesar de não mudar nada na sua vida, continua comprando. É espírita, católico não-praticante ou crê numa força superior pois, apesar de não concordar com os valores das religiões ultrapassadas, tem medo de assumir que você está sozinho. Mantém-se apegado ao valores familiares apesar de todos viverem brigando, dos pais serem separados, da tia estar no terceiro casamento, do fulano que odeia sicrano e todas as mazelas da família desestruturada.
E sendo moderno, você não possui preconceito. Não quer que sua chefe seja mulher, que seu filho seja gay, ou que sua filha namore um negro. Talvez não ligue sequer para isso, portanto que seja um rapaz trabalhador, com estudo e um bom emprego pra sustentar a casa. Não quer que seus filhos bebam ou fumem maconha, embora você consuma centenas de cigarros e pílulas anti-stress-ansiedade-depressão-síndrome-do-pânico.
Seu medo é de não ter um amor romântico igual da novela, de ser roubado e perder suas propriedades privadas, a falta de emprego e não ter o último modelo de celular com câmera digital.
Você não tem referência, não tem substância.
--Combater a sociedade capitalista de consumo instaurada que busca transformar todas as coisas e pessoas em produtos vendáveis. O viés aqui proposto é contrário a todas as mega-corporações que enriquecem com a pobreza das maiorias, negando assim qualquer cumplicidade, defesa ou parceria da arte com a iniciativa privada ou pública, que não seja com finalidade traiçoeira de infligir-lhes dano, descrédito ou prejuízo.
--Assumir com severidade a crítica dos diversos artistas e obras que cortejam o mercado e atuam para a manutenção da estrutura classista, hierárquica e repressiva; seja no âmbito econômico ou político. Como, por exemplo, a literatura de entretenimento e de auto-ajuda, e praticamente tudo o que a televisão, o rádio e o cinema oferecem à massa.
--Ser independente e relegar a velha postura esquerdista dos tempos ditatoriais, seja o velho marxismo revolucionário, a social democracia ou as infindas diversidades que daí surgem. Somos anarquistas, apartidários, revolucionários, e não apenas devemos negar a política burguesa, mas apoiar as ações e táticas autogestionadas e libertárias, que visam a libertação dos indivíduos, grupos, comunidades, enfim, de todos, buscando a política horizontal heterogênea.
--Apropriar-se de todas as formas de arte, sejam antigas, modernas ou experimentais; nas formas puras ou nas suas misturas; de todos os meios e mecanismos da produção da arte, rústicos ou elaborados; portanto que visem a libertação do sujeito (individual e social). Um único tipo de arte está proibido, o que vise a alienação, dano ou retrocesso mental do sujeito.
--Deus não existe, ou se existe, anseia a comunhão e liberdade de todos os seres, o que é radicalmente contra os princípios de qualquer religião instituída e oficializada. Se deus exige cumprimento de regras e leis ou algum tipo de adoração hierárquica, então este deus é contrário a nós e está automaticamente assinalado como nosso inimigo.
--A propriedade privada é um roubo! Tanto a propriedade privada quanto a intelectual são propriedades de todos, embora não devamos possibilitar jamais que o mercado a use para sua benesse, assim, devemos proteger nossa produção intelectual contra aos maus intencionados, e simultaneamente disponibilizá-la a todos os que comumente estão excluídos dos benefícios da arte.
--Nietzsche matou Deus e destruiu a moral. É preciso prosseguir essa desconstrução, destruindo também o Amor, platônico, maravilhado, submisso, que se coloca acima de tudo, dos demais sentimentos e prioridades. Sentimento estritamente burguês, por origem e manutenção. É preciso matar o amor cristão do “dar sem receber” e reconstruí-lo sob uma ótica darwinista, baseado no mérito. Só amando e querendo bem aqueles que o fazem na mesma reciprocidade e preocupação, as pessoas esforçarão para serem amadas com motivos verdadeiros.