Guerras Contidas!!

In Fluxos (romance em andamento)

Bom, aqui colocarei os trechos que estou escrevendo do "romance" experimental, por enquanto, chamado de In Fluxos. Não há problema em lê-lo assim, aos poucos, de picadinho, porque afinal ele é totalmente fragmentado, por isso o chamo de experimental. Também digo que é romance entre aspas, pois não sei se determinada estrutura cabe nas definições de romance, que pra piorar são várias e heterogêneas.

Vale ressaltar que ele sofre de uma forte influência Beat, embora mais atualizado ao nosso contexto e um pouco mais "intelectualizado" do que a informalidade coloquial do Beat. Some também o pé-na-estrada, característico do movimento, e surge a "viagem para dentro de si", que continua sendo efetuada através da iluminação das drogas. O "desbunde" também continua, embora mais orgulhoso, mas mais decadente.

A busca é o ser humano do novo século, o intelectual decadente, a vontade se opor sem saber como.
Enfim, a vontade de lutar e acreditar, esmagados pela implacável realidade.
Enfim, esperneios...

Atualização

último trecho: Vodka, vinho, ressaca e Redenção - 04/10/07

Sem estradas

Não é fácil nos definir. Somos beatniks sem o pé na estrada. O mundo está ao nosso alcance via satélite, e não temos esperança suficiente para acreditar que a vida seja melhor em qualquer outro lugar neste imenso globo terrestre.

Nossa melancolia é fazer parte da humanidade. Talvez não da humanidade, mas da sociedade como se apresenta atualmente, do capitalismo burguês neoliberal às ditaduras capitalistas de esquerda, ou mesmo as teocracias árabes. Distintos subprodutos da mesma merda. Em qualquer lugar estaríamos à deriva, a margem. Seríamos malucos, felizes, apaixonados, nostálgicos, deslumbrados, desvairados, incompletos e inconstantes, artistas e subversivos em qualquer lugar do mundo. Bósnia, Saigon, Alemanha ou Rússia. Mas sobretudo, tristes, seríamos tristes em qualquer parte do mundo.

Vodka, vinho, ressaca e Redenção

A nossa viagem não é física, geográfica; é duplamente interior. Somos urbanos, extremamente urbanos, solidamente urbanos. Vivemos nas casas de concretos, nas camas de madeira, nos jardins de inverno, perambulamos as ruas de asfalto, respiramos a fumaça de carros e fábricas, marcamos encontros pela fibra ótica, praticamente todo o vínculo entre nossa comida e sua origem é invisível, nosso sangue é urbano, nosso suor, saliva, porra, lágrimas; tudo é concreto e cinza.

Não somos mais pós-modernos, ou pré-qualquer-coisa, somos algo de substância, mesmo que nossa substância seja a abstração, a fragmentação, o caos e a cidade.

Eu e meus amigos somos intelectuais pequeno-burgueses anti-sistema, delirando poesias e filosofias, regados a álcool, maconha e distintas viagens. Pré-filósofos e pré-artistas sustentados pelos pais, se submetendo a mediocridade do meio acadêmico para receber um diploma por questões puramente econômicas (já perdemos a ilusão da aquisição do grande conhecimento que a Universidade nos ofereceria, pura balela). Na verdade o que estamos fazendo é nos espernear. Afogando nossa mente em álcool e curtindo ao máximo essa nossa parte da vida, o momento ideal, sem preocupações financeiras, sem ter que trabalhar de verdade, sem ter que estudar de verdade e virando noites inteiras na mais pura curtição. Tempo livre para lermos e estudarmos coisas que gostamos de verdade, para montarmos e desmontarmos teorias alucinadas e para provar de tudo. Divinas experiências (a catarse aristotélica no seu mais profundo sentido) relacionadas à arte, filosofia, drogas e sexo. Histórias sobre as quais falaremos mais tarde.

Na verdade estamos nos esperneando. Jogando no mais profundo esquecimento o fato de que um dia isso tudo irá acabar. A faculdade vai acabar, a compreensão (e porque não cumplicidade?) dos pais, o tempo livre, tudo isso irá acabar. Trocaremos nossa vida paradisíaca por um trabalho que escravizará nossos corpos e almas. No começo será apenas para ganhar uns trocados para podermos curtir mais. Nosso tempo será lentamente sugado e nossas novas aquisições demandarão mais contas, mais dinheiro e mais atenção. Isso tudo significará mais responsabilidade com as coisas sérias, o que automaticamente demandará menos tempo para tudo que for interessante. Trabalho, família, IPVA, imposto de renda; e logo acharemos nossa antiga vida um exagero, coisa de jovens! Seremos uns merdas, escrotos e fracassados.

Esse era nosso maior medo. Por isso resolvi levar logo uma garrafa de vodka e uma do vinho mais barato, assim misturando esses dois ingredientes mágicos junto com unzinho, no outro dia nosso único problema seria apenas uma forte ressaca, mas esse problema se resolve em apenas um dia. E o que é um dia comparado a um futuro medíocre?

O encontro com Deus

Não posso dizer quando tudo começou, pois a narrativa atual é fruto de toda uma vida de influências, mas um momento foi crucial pra que tudo isso começasse. Eu estava num bar, destes locais meio alternativos que cobram caro, mas tocam um rock n roll, ainda que não seja nada entusiasmante. Mas estes lugares são raros, então acabou sendo nossa única opção.

O lugar era bacana, um local não muito grande e com uma péssima acústica. Possuía um balcão longo onde os solitários bebiam seus drinks, um salão grande em frente ao pequeno palco, ao lado havia uma sala lateral com mesas e cadeiras. Eu estava com meus dois amigos X e Y. Naquela noite saímos para curtir a noite, e por isso já tínhamos tomado caipirinha e fumado maconha antes de chegar ao bar. Aquela era uma época boa, eu diria até épica. Saía para curtir meus amigos, a música, boas conversas, outros ares e toda aquela vibração da noite boêmia. O intuito não era encontrarmos mulheres viçosas para fazermos sexo e curtir todas, também era o objetivo, mas não o fundamental. Grande parte dos homens, e mesmo das mulheres, saem para caçadas sexuais, numa espécie do frenesi do cio. Meus amigos e eu também tivemos essa fase, talvez eu mais do que eles, mas agora estávamos num momento diferente, alteração certamente facilitada pelo uso das drogas, pois nos deixa mais satisfeitos com pequenas coisas banais, o que inclui nós mesmos. A sensação de prazer que a droga provoca de forma fácil acaba ocupando o lugar de outros prazeres, às vezes mais triviais, às vezes mais difíceis. Assim, com mulheres ou sem, sorvíamos cada coisa boa que poderíamos tirar daquela noite, até mesmo porque não havia muitas garotas que me interessassem naquele local.

Sentados numa das mesas, tomávamos cervejas e conversávamos sobre assuntos diversos. Num certo momento ficamos observando um cara e uma garota que conversavam. Num alto grau de loucura fazíamos uma análise sobre aquela investida sexual. Incrível como o ser humano é tão animal! Na sua profusa evolução e corrida pelo topo das cadeias alimentares, o homem tentou distanciar-se tanto dos seus concorrentes primitivos que se distanciou também de seus instintos primitivos, buscando cada vez mais afastar-se dos outros animais. Primeiramente supera a força com a inteligência, distinguindo assim os racionais e os irracionais, e depois cria uma descendência divina como separação final, distinguindo os que possuem alma e os que não possuem. Assim, o homem menospreza tudo em si que lhe lembra o animal, ou seja, seus instintos primitivos e não querem ver algo que é tão óbvio.

Ela estava lá, loira, linda, cabelos lisos e balançantes, calça justa, um decote generoso, sensual... sexual. Ele apresentava suas penugens coloridas de pavão, roupas de marca, perfume, penteado do momento, um sorriso descontraído. A dança do acasalamento – disse X eufórico enquanto desenvolvíamos esta teoria. Ficamos observando e comentando cada detalhe, distraindo-me às vezes com a música que me lembrava de sua existência e vinha baixa e lenta chamar, como uma serpente fervilhando sua língua em meu ouvido. E esse solo de guitarra ia se tornando maior e mais denso, num fluxo continuo e penetrava em minhas orelhas e parecia que cada célula do meu corpo vibrava na freqüência daquelas notas.

É! Ahan! – disse X com aquele seu sorriso enorme e satisfeito, com um cara maravilhosa que ele sempre esboçava quando, em nossas divagações, de repente tudo se encaixava na sua cabeça, como uma peça, quase fazendo um estralo audível. Era um filho-da-mãe maravilhoso!

Observamos mais um pouco daquele jogo delicado. Afinal, após a apresentação das plumas estabelece-se um diálogo, onde cada integrante irá procurar dar as respostas certas, de acordo, claro, com a relação de desejo e poder estabelecida, vantagem que é geralmente da mulher (infelizmente). Se a troca de informação for bem sucedida ele irá propor irem pra algum lugar, que quer dizer algum canto mais sossegado para se beijarem e se acariciarem sexualmente. Claro que há mais coisas relacionadas do que apenas o fisiológico (fator predominante nos animais), existe todo um sistema psicológico envolvido. E o rumo dessa conversa pode decidir se nossos objetos de estudo, cada um deitado em sua cama, decida se a noite foi boa ou ruim.

Y nos arrancou daquele transe para darmos uma volta para ver a banda, pois a arquitetura tosca não nos permitia ver o palco de onde ficavam as mesas. Sugeri antes passarmos no bar e concordamos em pegar uma dose de pinga, mas uma pinga boa, para beber no entremeio dos goles de cerveja (pra não perdermos tempo disse Y, o que nos causou longas risadas, bem menos longas se estivéssemos sóbrios). Caminhar por entre as pessoas foi maravilhoso, a música e o ambiente transmitiam uma vibração que minha loucura deixava suave e alegre. Paramos perto de uma mesa em frente ao palco. Estávamos bem demais, maravilhosamente bem. A banda mandava um rock and roll muito bem. Passávamos o copo de pinga, enchíamos os copos de cerveja e conversávamos, fazíamos piadinhas. Com exceção do repertório, que não era ruim, mas era composto apenas pelas músicas mais clássicas das bandas mais clássicas. O clima estava sossegado, e por isso curtíamos devagar o som, balançando um pouco a cabeça, mexendo os braços e batendo os pés. Born to be wild, Highway to the hell, Paranoid, etc. E ai foi nesse momento, um momento mágico! As luzes mudavam de cor. Azul, amarelo, violeta, verde. Eu ergui meu copo e vi as luzes desfocadas pelo vidro se dividindo em pequenos raiozinhos, teias de aranha psicodélicas, coloridas e a música balançando tudo, todo meu ser, como se W tivesse razão e meu corpo fosse constituído por ínfimas mônadas, pedacinhos pulsantes de alma que vibravam ao som de Rock n roll all night. E aí, olhando para aquele copo multicolorido, percebi minha primeira verdade reveladora: eu era Deus.

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