Guerras Contidas!!

Guerras Contidas

Cristian dos Santos
Poemas

24 poemas (não será atualizado)
20 de novembro de 2007

Aqui estão alguns poemas do meu livro, Guerras Contidas (apenas alguns, assim quem gostar tem que comprar o livro, rs). Ele foi o resultado final de minha produção em verso, que começou lá por 1997. A sua proposta era geral, afinal era o meu acervo todo de poemas,. Apenas os que resistiram, jogo muita coisa fora, tanto que em 10 anos eu não tinha 100 poemas, embora escreva constantemente. O nome Guerras Contidas é o que ele significa, eu estava gritando ao mundo as guerras que eu mantinha dentro do peito, travar nas folhas as guerras que a gente não trava no mundo real, porque estamos sozinhos ou somos poucos (por enquanto). O nome também já mostra o intuito politico (anarquista), de crítica social que muitos poemas apresentam. O amor, outro tema recorrente nos poemas, busca ser distinto do amor que tudo pode, idealizado, senso comum, e mais erótico, mais sensual, como todo amor deveria ser. A crítica da religião, do teismo, também é muito presente, pois o ateísmo do livro se trata realmente de uma batalha, uma bandeira de luta. É isso, o resto você descobre lendo.

Fique à vontade para comentar, isso me alegra muito.

Como está seu dia hoje?

Para os dias AMARELOS leia, com uma garrafa de cerveja, estes poemas.

Para os dias VERMELHOS declame, com uma garrafa de cerveja, estes poemas.

Para os dias CINZAS amargue, com uma garrafa de cerveja, estes poemas.

Para os dias NEGROS grite com, uma garrafa de cerveja, estes poemas.

Amarelos

ngústia,Temporal


Isso.

Ria de mim.

Hoje estou tombado

(cai e derrubei todas minhas quimeras no chão)


Mas ainda é meia noite

E chorarei por algum tempo

Ruminando feridas de pus e sangue

Mas ria AGORA, - momento único no plano cartesiano -


Porque amanhã... ah sim...

Amanhã as lágrimas quentes serão como água fresca à boca

E mais forte... romperei essas densas linhas de casulo


E por mais algum tempo

Serei imortal!




Cara nova


ngústia, gústia, Deixo às vezes a barba crescer

Pelo simples gosto de, ao raspa-la,

Sentir-me revigorado.




A tristeza e a borboleta


ngústia, Não diga, sou triste,

ou sou feliz.


Pois que é a vida?

Acaso não é esta onda alucienada

De AM e FM

Ora pranto, ora riso

De ferir e ser ferido

E da caçada à fuga desgraçada?


Ora! Se acaso chora

Aproveite sua dor

E beba seu xarope ruim

Sinta a ferroada na palma da mão

E lembre-se que a carne dormente ainda vive

E logo se acordará


                                        ) o céu (


( para ganhar )


) borboleta (


( Livre )





Réquiem de um anjo


Ah, mas que samaritanismo vão é esse!?

Não foi um tropeço, joguei-me em plena queda!

E agora vem das iluminuras celestialtas

(que o altruismo é a exacerbação do mais puro egocentrismo)

salvar-me destas trevas que tão gentis cobrem meu rosto?


Amanse sua alma tão generosa,

Guarde suas alvas asas tão plumadas

e perca-se comigo.


Vermelhos

Vinho


Angústia, Vem de repente à minha boca

A saudade do teu beijo



Leproso


Agrega minha gangrena

Está chaga medonha

Junto a tua limpa pele

E esconde meus segredos debaixo da tua saia


Corta meus tornozelos com tua navalha

E lambe toda a gota de sangue

Flamba no fogo dos olhos teus


Morde minhas feridas vivas

E beija o pus latente

Fétida vertente da minha doença

Pútrida excreção de meus cânceres


Beija assim, minha meiga

Pois não aceito nenhum amor

Que não tenha plena consciência

De minha podridão



Angústia,


Auto-mar


Angústia,

                                            O meu amor,

                                                        amor

Depende essencialmente do teu amor

Se a minha chama não tiver a tua lenha

            (Veleiro sem vento em alto-mar)

Não estarei eu amando em você apenas o que não há?

       (Serei eu brincando de auto-amar?)




Vermelho-verde-areia


A língua de um dragão vermelho

Folhas frescas de hortelã

Tão negra é a nuvem,

E não são gotículas que se acumulam?


Noite gelada do deserto

Que boca recebera a navalhada do teu beijo?


Não foi com hena que escreveste em teu corpo

Os meus oitenta nomes?





Ninho


Luz de manhãzinha que entra por uma fresta da janela

Sábado de manhã

Beijos plumas gelo

Seda mãos

Espichar gato amarelo

Urso abraço de casulo

ApertadoApertado

Protegido no ventre de novo alguém me gera

Orações para deus nenhum no pé do ouvido

Ouvido, ouvido...ouvido........ouvido.................olvido

Umbigo, caminho de grama

Cócegas, formiga?

Fome preguiça sono

Nossos corpos um nó-cego

Cego-surdo-mudo por um segundo

Aninhados

Anis, girassol, bolo de chocolate, banho de espuma, água com sede, música, presente...

Te aperto mais forte


Lá fora

Bem distante

O mundo triste nos aguarda





Eros, o deus do amor


Parte I


O cupido que eu vi

Era um anjo branco como a neve

Possuía asas ígneas

Uma armadura de couro

E na mão,


Na mão uma espada de fogo

com a qual cortava as pessoas/

/ao meio



Parte II


No dia em que pousou sobre mim

(era a quadragésima vez)

Viu tamanhos descrédito e indiferença

(parecia estar surpreso)

Que me queimou o coração com sua lâmina e disse:

(com aquele seu olhar sempre frio)

--Vem e segue-me, será meu acólito.





Conhaque com mel


Rasgou-me doce a garganta

Língua de giletes embevecidas em mel

Era teu beijo de abelha

ou a lembrança colorida na mesa branca do bar?





Eros, o deus do amor – Parte III


Até os anjos mais castos

Puros, bons e loiros

Desejam o sangue das carnificinas



Cinzas

Blues e vinho


O vinho é suave e varietal

Mas tudo bem, é Stevie Ray Vaughan quem arranca notas e acordes da guitarra

É a terrível e sempre presente compensação insuficiente

Que consola, mas não satisfaz.


Beijo sem paixão

Vinho sem terroir

Blues sem tristeza

Minha vida sem muita ação

(será que um dia me rendo e arrumo um emprego numa repartição?)


O importante é, mesmo na lua minguante,

Dormir, mas manter a espada abraçada

Jamais perder-se, como quem se anula em frente à uma televisão na madrugada.




Lamento


Eu te queria assim
Mais pedra,mais firme.
Talvez assim, talvez não

Mas sem as delicadezas primaveris das orquídeas
Bichinho joaninha na mão de menino
Que no soluço amassa a vida e fim.

Te queria mais cilíndrica e forte
Degrau de alcançar estrelas mais altas

Menina de papel de seda
Que molhada de lágrimas
Só de pegar desfaz
Eu não consigo pegar sem rasgar-te.





Uma das verdades sobre o amor


Quando eu disser que te amo

Acredite... mas assim... enfim...

Não tome estas palavras como garantia de algo

O amor não é eterno

Escapa no ponteiro dos segundos

E não há cartório que lavre semelhante promessa


Quando eu disser que te amo

Não estenda minhas palavras ao infinito

Que o amor se faz de situações, ações e contextos

Tudo o que foi vital para aquele momento

Pode não existir


(Teto algum se mantém sem colunas!)


Quando declarei a palavra amor

A verdade era que lhe queria

De que morreria por você

Que seria só seu

Tudo por você e todo para você


Porém,

apenas naquele momento



(não me interprete mal)





Torre


Eu queria uma torre de marfim.

Alta, alta sem fim.

Acima das nuvens

Acima de mim


Eu queria uma cama de pinho ou de cedrinho

Para eu dormir, dormir

Num sono infinito sem fim.





Garrafas


Vísceras, vísceras, vísceras

Noites de arsênico

Noites de dia infinito


Na garrafa meio vazia

Minha vida com meio sentido


A cada gole, uma nova perspectiva

E o peso do mundo agora tão leve


A garrafa vazia

Eu tão cheio de tudo


Negros

Angústia,

Nécessaire


O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
A asa de gigante o impede de andar.

O Albatroz, de Charles Baudelaire


Ah poeta,

porque perde tanto tempo assim sendo maravilhoso?

Não cansou ainda de plantar ódios e amores?


Vai! Escuta a vida!

Vai ser útil, artista!

Vai construir alguma coisa, ser engenheiro, advogado, mecânico

Vai vender hambúrgueres nas cadeias de fast-food

Que o mundo precisa muito mais de hambúrgueres do que de versos e quadros e teatro


Tantas bocas...


Vai vender hambúrgueres, poeta!

Vai ser útil na vida.





A criação


E pegou o barro e lhe deu a forma

Braços e pernas, assim fez a estatueta

E com as palavras de sua boca

Deu-lhe vida

(passado, presente e futuro)


Assim foi há milhares de anos,

quando o homem criou Deus





O desejo dos que nasceram depois de tudo


Eu quero um inimigo

Desses cruéis, perseguidores implacáveis

Que ande a luz do dia e sorrateiramente na calada da noite

Que tenha espadas e farpas

Duzentos chifres e mil dentes

Olhar desintegrador de chamas negras

Voz de relógio despertador.

Mil lanças contra o corpo!


Eu quero um inimigo pra rolarmos no chão

Que sangre, que grite, que tenha uma cara de gente

(ou de bicho)

Mas essencialmente que tenha cara!

Por mais pequena que seja a microscópica possibilidade percentual de vitória

Mas que seja!


Que não seja esse fantasma amorfo

Olhos de cruz, boca de televisão, mãos de cacetete

Possuidor de mentes e controlador de corpos

Tênue marca d´água de uma sombra

Quase invisível, quase metafísico

Casa de espelhos com fundos falsos

Murros contra o vento!


Que esse inimigo leviatãnico seja assim

Personificação de tudo o que é ruim

Mas físico, (de)concreto, descritível e desenhável

Para que eu,

ao ver sua cara grandiosa,

Me lance kamikaze

Em chamas e frangalhos





Cabresto


Não me peça freio

O meu caminho eu abri a dentadas

Rasgando panos, cordas e travesseiros!

E quem agora terá a audácia de me dizer:

--Não é bem assim?





Contraversão


Eu? Eu!

Sujeito simples

Três salários mínimos por mês

E me pedem,

Naquela cara de pau absoluta

Ajudar o asilo da esquina

o orfanato da periferia

os vicentinos e o Criança Esperança quando

na mesma tarde a APAAE me pede auxílio financeiro!?


Eu que nunca saí do Estado de São Paulo

Me mandaram atentar pela Floresta amazônica

E pelas crianças famintas da Etiópia!


Há! Eu?

Superlativo de adjetivos miseráveis

Que compro eletrodomésticos a prestações

E me perco nas contas de minhas contas!


É claro que eu não quero que o Mico-leão da Cara Dourada seja extinto

E nem que o pacto de Kioto seja desrespeitado

Mas que grandes coisas posso fazer eu que sou tão ínfimo?


Onde estão os grandes? Céus! Onde estão os deuses?






Embebedando-se de néktar no Olimpo...





Presunção


Enquanto você pensa que me conhece profundamente.

Você nem sequer toca a minha epiderme!





Na espera da hora exata


Amanhacemos, amanhã seremos, do amanhã somos,

Amanhã sim, amanhã semos, amanhasêssemos

Arranharemos hoje apenas os sonhos, amanhã seremos

Amanhã amanheceremos, no amanhã nunca hoje

Hoje somos o que nunca amanhã seríamos

Seremos sempre o que somos

Porque o amanhã só amanhece na conjectura dos que esperam

Esperaremos sempre a hora exata, a hora do crepúsculo

E na impotência da noite gélida morreremos antes da meia-noite

No eterno hoje de todas as coisas.