Ria de mim.
Hoje estou tombado
(cai e derrubei todas minhas quimeras no chão)
Mas ainda é meia noite
E chorarei por algum tempo
Ruminando feridas de pus e sangue
Mas ria AGORA, - momento único no plano cartesiano -
Porque amanhã... ah sim...
Amanhã as lágrimas quentes serão como água fresca à boca
E mais forte... romperei essas densas linhas de casulo
E por mais algum tempo
Serei imortal!
Cara nova
Pelo simples gosto de, ao raspa-la,
Sentir-me revigorado.
A tristeza e a borboleta
ou sou feliz.
Pois que é a vida?
Acaso não é esta onda alucienada
De AM e FM
Ora pranto, ora riso
De ferir e ser ferido
E da caçada à fuga desgraçada?
Ora! Se acaso chora
Aproveite sua dor
E beba seu xarope ruim
Sinta a ferroada na palma da mão
E lembre-se que a carne dormente ainda vive
E logo se acordará
) o céu (
( para ganhar )
) borboleta (
( Livre )
Réquiem de um anjo
Ah, mas que samaritanismo vão é esse!?
Não foi um tropeço, joguei-me em plena queda!
E agora vem das iluminuras celestialtas
(que o altruismo é a exacerbação do mais puro egocentrismo)
salvar-me destas trevas que tão gentis cobrem meu rosto?
Amanse sua alma tão generosa,
Guarde suas alvas asas tão plumadas
e perca-se comigo.
A saudade do teu beijo
Leproso
Agrega minha gangrena
Está chaga medonha
Junto a tua limpa pele
E esconde meus segredos debaixo da tua saia
Corta meus tornozelos com tua navalha
E lambe toda a gota de sangue
Flamba no fogo dos olhos teus
Morde minhas feridas vivas
E beija o pus latente
Fétida vertente da minha doença
Pútrida excreção de meus cânceres
Beija assim, minha meiga
Pois não aceito nenhum amor
Que não tenha plena consciência
De minha podridão
Auto-mar
amor
Depende essencialmente do teu amor
Se a minha chama não tiver a tua lenha
(Veleiro sem vento em alto-mar)
Não estarei eu amando em você apenas o que não há?
(Serei eu brincando de auto-amar?)
Vermelho-verde-areia
A língua de um dragão vermelho
Folhas frescas de hortelã
Tão negra é a nuvem,
E não são gotículas que se acumulam?
Noite gelada do deserto
Que boca recebera a navalhada do teu beijo?
Não foi com hena que escreveste em teu corpo
Os meus oitenta nomes?
Ninho
Luz de manhãzinha que entra por uma fresta da janela
Sábado de manhã
Beijos plumas gelo
Seda mãos
Espichar gato amarelo
Urso abraço de casulo
ApertadoApertado
Protegido no ventre de novo alguém me gera
Orações para deus nenhum no pé do ouvido
Ouvido, ouvido...ouvido........ouvido.................olvido
Umbigo, caminho de grama
Cócegas, formiga?
Fome preguiça sono
Nossos corpos um nó-cego
Cego-surdo-mudo por um segundo
Aninhados
Anis, girassol, bolo de chocolate, banho de espuma, água com sede, música, presente...
Te aperto mais forte
Lá fora
Bem distante
O mundo triste nos aguarda
Eros, o deus do amor
Parte I
O cupido que eu vi
Era um anjo branco como a neve
Possuía asas ígneas
Uma armadura de couro
E na mão,
Na mão uma espada de fogo
com a qual cortava as pessoas/
/ao meio
Parte II
No dia em que pousou sobre mim
(era a quadragésima vez)
Viu tamanhos descrédito e indiferença
(parecia estar surpreso)
Que me queimou o coração com sua lâmina e disse:
(com aquele seu olhar sempre frio)
--Vem e segue-me, será meu acólito.
Conhaque com mel
Rasgou-me doce a garganta
Língua de giletes embevecidas em mel
Era teu beijo de abelha
ou a lembrança colorida na mesa branca do bar?
Eros, o deus do amor – Parte III
Até os anjos mais castos
Puros, bons e loiros
Desejam o sangue das carnificinas
Blues e vinho
O vinho é suave e varietal
Mas tudo bem, é Stevie Ray Vaughan quem arranca notas e acordes da guitarra
É a terrível e sempre presente compensação insuficiente
Que consola, mas não satisfaz.
Beijo sem paixão
Vinho sem terroir
Blues sem tristeza
Minha vida sem muita ação
(será que um dia me rendo e arrumo um emprego numa repartição?)
O importante é, mesmo na lua minguante,
Dormir, mas manter a espada abraçada
Jamais perder-se, como quem se anula em frente à uma televisão na madrugada.
Lamento
Eu
te queria assim
Mais pedra,mais firme.
Talvez assim, talvez
não
Mas sem as delicadezas primaveris das
orquídeas
Bichinho joaninha na mão de menino
Que
no soluço amassa a vida e fim.
Te queria mais
cilíndrica e forte
Degrau de alcançar estrelas mais
altas
Menina de papel de seda
Que molhada de lágrimas
Só
de pegar desfaz
Eu não consigo pegar sem rasgar-te.
Uma das verdades sobre o amor
Quando eu disser que te amo
Acredite... mas assim... enfim...
Não tome estas palavras como garantia de algo
O amor não é eterno
Escapa no ponteiro dos segundos
E não há cartório que lavre semelhante promessa
Quando eu disser que te amo
Não estenda minhas palavras ao infinito
Que o amor se faz de situações, ações e contextos
Tudo o que foi vital para aquele momento
Pode não existir
(Teto algum se mantém sem colunas!)
Quando declarei a palavra amor
A verdade era que lhe queria
De que morreria por você
Que seria só seu
Tudo por você e todo para você
Porém,
apenas naquele momento
(não me interprete mal)
Torre
Eu queria uma torre de marfim.
Alta, alta sem fim.
Acima das nuvens
Acima de mim
Eu queria uma cama de pinho ou de cedrinho
Para eu dormir, dormir
Num sono infinito sem fim.
Garrafas
Vísceras, vísceras, vísceras
Noites de arsênico
Noites de dia infinito
Na garrafa meio vazia
Minha vida com meio sentido
A cada gole, uma nova perspectiva
E o peso do mundo agora tão leve
A garrafa vazia
Eu tão cheio de tudo
Nécessaire
O
poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a
tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à
corja impura,
A asa de gigante o impede de andar.
O Albatroz, de Charles Baudelaire
Ah poeta,
porque perde tanto tempo assim sendo maravilhoso?
Não cansou ainda de plantar ódios e amores?
Vai! Escuta a vida!
Vai ser útil, artista!
Vai construir alguma coisa, ser engenheiro, advogado, mecânico
Vai vender hambúrgueres nas cadeias de fast-food
Que o mundo precisa muito mais de hambúrgueres do que de versos e quadros e teatro
Tantas bocas...
Vai vender hambúrgueres, poeta!
Vai ser útil na vida.
A criação
E pegou o barro e lhe deu a forma
Braços e pernas, assim fez a estatueta
E com as palavras de sua boca
Deu-lhe vida
(passado, presente e futuro)
Assim foi há milhares de anos,
quando o homem criou Deus
O desejo dos que nasceram depois de tudo
Eu quero um inimigo
Desses cruéis, perseguidores implacáveis
Que ande a luz do dia e sorrateiramente na calada da noite
Que tenha espadas e farpas
Duzentos chifres e mil dentes
Olhar desintegrador de chamas negras
Voz de relógio despertador.
Mil lanças contra o corpo!
Eu quero um inimigo pra rolarmos no chão
Que sangre, que grite, que tenha uma cara de gente
(ou de bicho)
Mas essencialmente que tenha cara!
Por mais pequena que seja a microscópica possibilidade percentual de vitória
Mas que seja!
Que não seja esse fantasma amorfo
Olhos de cruz, boca de televisão, mãos de cacetete
Possuidor de mentes e controlador de corpos
Tênue marca d´água de uma sombra
Quase invisível, quase metafísico
Casa de espelhos com fundos falsos
Murros contra o vento!
Que esse inimigo leviatãnico seja assim
Personificação de tudo o que é ruim
Mas físico, (de)concreto, descritível e desenhável
Para que eu,
ao ver sua cara grandiosa,
Me lance kamikaze
Em chamas e frangalhos
Cabresto
Não me peça freio
O meu caminho eu abri a dentadas
Rasgando panos, cordas e travesseiros!
E quem agora terá a audácia de me dizer:
--Não é bem assim?
Contraversão
Eu? Eu!
Sujeito simples
Três salários mínimos por mês
E me pedem,
Naquela cara de pau absoluta
Ajudar o asilo da esquina
o orfanato da periferia
os vicentinos e o Criança Esperança quando
na mesma tarde a APAAE me pede auxílio financeiro!?
Eu que nunca saí do Estado de São Paulo
Me mandaram atentar pela Floresta amazônica
E pelas crianças famintas da Etiópia!
Há! Eu?
Superlativo de adjetivos miseráveis
Que compro eletrodomésticos a prestações
E me perco nas contas de minhas contas!
É claro que eu não quero que o Mico-leão da Cara Dourada seja extinto
E nem que o pacto de Kioto seja desrespeitado
Mas que grandes coisas posso fazer eu que sou tão ínfimo?
Onde estão os grandes? Céus! Onde estão os deuses?
Embebedando-se de néktar no Olimpo...
Presunção
Enquanto você pensa que me conhece profundamente.
Você nem sequer toca a minha epiderme!
Na espera da hora exata
Amanhacemos, amanhã seremos, do amanhã somos,
Amanhã sim, amanhã semos, amanhasêssemos
Arranharemos hoje apenas os sonhos, amanhã seremos
Amanhã amanheceremos, no amanhã nunca hoje
Hoje somos o que nunca amanhã seríamos
Seremos sempre o que somos
Porque o amanhã só amanhece na conjectura dos que esperam
Esperaremos sempre a hora exata, a hora do crepúsculo
E na impotência da noite gélida morreremos antes da meia-noite
No eterno hoje de todas as coisas.